Mediar conflito garante processo de paz – Advogada faz projeto em comunidades pacificadas

por Amelia Gonzalez, O Globo, 17 de maio de 2011.

Conheci a advogada Gabriela Assmar em novembro do ano passado, num evento da Firjan sobre mediação de conflitos. Naquele mesmo dia, depois do evento, Gabriela foi contratada pela Federação para mediar conflitos nas comunidades pacificadas pela Unidade de Policia Pacificadora (UPP). Apaixonada pelo processo de mediação, prática com a qual fez contato quando estudou nos Estados Unidos, eque chegou aqui no Brasil, via Viva Rio, em 2007, Gabriela ficou animada quando recebeu o convite. Seis meses depois, voltei a ela para saber como foi seu trabalho. O entusiasmo continua, o otimismo também. Para Gabriela, as ferramentas que capacitam pessoas a lidarem com mediação de conflitos pode ser agrande chave para uma sociedade sustentável. Como? Descubra a seguir.

O GLOBO: Como foi (ou está sendo) este processo nas UPPs que começou quando você foi convidada pela Firjan?

GABRIELA ASSMAR: Treinamos 13 líderes comunitários das regiões pacificadas por UPPs em salas de aula para eles aprenderem a usar ferramentas de mediação de conflitos. O que procurei deixar bem claro é que o papel deles não é ser mediador de conflitos entre duas pessoas que estão brigando, mas mediadores entre culturas. Porque eles estão fazendo a história de uma transição entre o mundo anterior às UPPs e este agora, onde se deseja que a comunidade tenha de volta um direito de ir e vir, uma liberdade de gerir seu próprio destino.

O GLOBO: O que alguns estudiosos que estão acompanhando o processo de pacificação das comunidades estão dizendo é que esses moradores estão substituindo um jugo pelo outro. Saem os traficantes, que eram um poder, entram os policiais, que passam a ser outro poder a quem eles também terão que obedecer…

GABRIELA ASSMAR: Veja, para entender melhor esse processo é preciso lembrar a história do país. Fomos uma colônia como tantas outras, só que nem na independência assumimos a responsabilidade pela transição, não passamos por uma revolta violenta na qual o povo tenha tomado nas suas mãos o destino para nos tornamos independentes. A nossa constituição é a única de que eu tenha notícia que fala expressamente em resolução pacífica das controvérsias. E estamos, assim, acostumados a esperar que as mudanças venham de cima. Tomar para si a responsabilidade de um processo decisório é uma coisa à qual não estamos habituados. E o estado, como sempre, acaba sendo muito protetor, mas o papel dele precisa ser emancipador. Os policiais de UPP realmente fizeram melhorar a qualidade de vida dos moradores, por isso eles os querem ali.

O GLOBO: Mas ainda existe muita desconfiança por parte da população…

GABRIELA ASSMAR: É claro que existe desconfiança, é uma mudança muito profunda porque são gerações e gerações com medo da polícia. Mas a presença dela ali é desejada, até para preencher a lacuna deixada pelo traficante, que sempre teve uma função social naqueles territórios marcados pela ausência do estado. Quando o estado vem substituir essa função, ficam lacunas, e a própria comunidade vai pedir que a polícia preencha essas lacunas. Isso é necessário durante um tempo, mas não pode ser para sempre. É preciso pensar numa transição rumo à sustentabilidade dessas comunidades que não dependa da ocupação policial. Os moradores têm que pegar em suas mãos o seu destino com a responsabilidade de quem quer viver em paz.

O GLOBO: É aí que entra o seu trabalho? É isso que você vai ensinar?

GABRIELA ASSMAR: Sim, fazemos o treinamento dos líderes para que eles possam ser os multiplicadores dessa nova conduta.

O GLOBO: Você acha que está dando, ou que já deu certo? Tem alguma forma de medir isso?

GABRIELA ASSMAR: Sim, eu até ganhei um rap de um deles! (rs) A sério: muitos me disseram que passaram a usar os conceitos e situações aprendidos no curso com suas próprias famílias, no trato com seus filhos. Enfim, uma mudança de postura importante. Além disso, no início eu pedi que eles escrevessem uma situação de conflito e como eles agiriam. E no final eu redistribuí as folhas e pedi que eles contassem diante da mesma situação com o que aprenderam no curso. Muitos contaram até que, nesse ínterim, já tinham agido de maneira diferente inclusive em casa, com os filhos.

O GLOBO: Você vai às comunidades? Conversa com os moradores para saber como anda, de fato, a relação com esse novo momento?

GABRIELA ASSMAR: Vou sim. Uma vez, em conversa com uma pessoa idosa, ela disse que viveu num tempo em que o tráfico ali era visto com vergonha, as pessoas não queriam andar armadas, não gostavam disso. Houve uma transição, sobretudo um rejuvenescimento das pessoas envolvidas com o crime, onde ocupar esse espaço do traficante começou a trazer um status. Foi quando a violência passou a ser regra, não exceção. Hoje, com as comunidades pacificadas, as crianças já dizem que não querem ser traficantes, querem ter outra vida.

O GLOBO: É difícil imaginar que o tráfico tenha acabado de fato…

GABRIELA ASSMAR: Não acabou, claro, até porque, enquanto tem gente para comprar droga, vai ter gente para vender. Mas a economia do tráfico está mal. E essa corrente de confiança que está se instalando faz com que muita gente queira sair do movimento. O traficante não tem, às vezes, nem o primeiro grau completo mas está acostumado a um padrão de vida de classe média, ainda que confinado na comunidade. Eles, na verdade, já são prisioneiros ali dentro. Tanto que existem até pessoas que se profissionalizaram em trazer a vida do asfalto para a comunidade. Tem o provador de roupa, por exemplo. O cara tem um corpo parecido com o do criminoso que está lá dentro e não pode sair, e recebe a encomenda de comprar uma roupa para o outro. São funções que a gente não imagina. O que está acontecendo onde tem UPP é que a polícia está levando também opções de desenvolvimento.

O GLOBO: Mas tem também um outro lado dessa moeda: as comunidades viraram vitrine e estão recebendo milhares de projetos, de créditos, de possibilidade de consumo… Como evitar que isso se torne pernicioso em certo momento?

GABRIELA ASSMAR: Eu não consigo pensar em nada que seja sustentável sem educação. E a mediação de conflito não é só evitar que as pessoas se estapeiem. É o que antecede esse momento. O que se pretende é que as pessoas se olhem como decisoras do que vai lhes afetar em vez de jogar para outro a decisão. E não tem como as pessoas terem uma visão sistêmica de tudo que lhes afeta se elas têm dificuldade de montar uma frase. Elas vão ficar reféns daqueles mais preparados.

O GLOBO: Como os moradores dessas regiões veem as empresas e ONGs que estão chegando para oferecer produtos, projetos, serviços…?

GABRIELA ASSMAR: Na verdade, acho que a gente está engatinhando ainda em responsabilidade social. As empresas confundem muito marketing com responsabilidade social. E isso gera uma grande desconfiança nas pessoas. A gente sabe de organizações que vendem ticket para as empresas entrarem nesses locais. Vira uma arbitragem: quem dá mais em termos de projetos. E aí os projetos ficam competindo entre si e acabam minguando. Uma pena, um dinheiro desperdiçado. Além disso, não se vê mensuração de resultados. Na área social é mesmo muito difícil medir resultados.

O GLOBO: Bem, voltando ao seu trabalho, qual o segundo passo do processo?

GABRIELA ASSMAR: Tive oportunidade, em parceria com o consulado americano, de trazer dois especialistas dos Estados Unidos em mediação de conflitos e foi uma experiência muito boa. Tivemos um evento dentro do consulado com todos os líderes, eles ficaram bem impressionados, me deram um ótimo retorno.

O GLOBO: O projeto vai incluir também as escolas?

GABRIELA ASSMAR: Estamos partindo para um outro projeto, dentro das escolas, com crianças. Vou estar em seis escolas dentro da Maré e outras quatro espalhadas por regiões pacificadas. É importante que haja diferenças porque eu preciso medir muita coisa. Vamos levar oportunidade para essas crianças do sexto ao oitavo ano aprenderem a lidar com as diferenças, o que evita até mesmo o bullying: a antítese do medo é a informação.

O GLOBO: Mediação de conflito foi sempre sua opção de carreira?

GABRIELA ASSMAR: Não, de vida. Tenho plena convicção de que, quanto antes a gente puder atuar nos processos decisórios, melhores e menos caros serão os resultados. Não tenho legitimidade política institucional para atuar em conflitos entre comunidades e polícia mas tenho ferramenta para ajudar ambos os lados para construir uma relação mais produtiva. E sustentável.

O GLOBO: Você também trabalha mediando conflitos em empresas, como é isso?

GABRIELA ASSMAR: É o meu sustentáculo, é onde ganho dinheiro. Atuo muito em empresas familiares, geralmente ninhos de conflitos porque existem muitos conflitos de papeis. Até para as empresas entenderem a importância disso no social elas têm que aprender dentro de suas paredes.

Veja aqui a versão impressa: OGlobo-RazaoSocial-2011-05-GabrielaAssmar

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