Somos todos Brasileiros – Há urgência em superar o “nós X eles”

Bolsonaro se elegeu num encadeamento de ineditismos, com muito mérito próprio, mas também no esteio do anti-petismo. Foi o processo eleitoral que despertou as maiores paixões e polarizações comportamentais do eleitorado. Ele ganhou fama de “mito” e agora precisa aprender a usá-la para o bem do Brasil inteiro, construindo respeito e legitimidade por um mínimo de 4 anos.

Na história da humanidade, as estratégias para vencer “o outro” são bem diferentes do que se requer para conviver com “ele”. Vencer um pleito é uma pequena, embora fundamental, etapa de um governo vitorioso. Não parece possível sustentar uma democracia contra 47 milhões de cidadãos amedrontados.

Tenho amigos de ambos os lados e respeito a todos. Sinto muito que tantos não se estejam respeitando. Esses comportamentos aflorados não são responsabilidade apenas de Bolsonaro e Haddad. Eles inspiraram instintos adormecidos num povo dividido por códigos de valores, muitas vezes inconscientes. É cômico e trágico ver como cada extremo se acha detentor da verdade, como se os demais devessem abrir mão de suas versões da verdade e como se não fossemos interdependentes.

Bolsonaro citou em seu primeiro e espontâneo discurso após a vitória: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará!” Essa sublime fonte de sabedoria traz consigo o “Faça aos outros o que gostaria que lhe fizessem”. Está nas mãos do vencedor dar o exemplo pacificador. Não bastam palavras. A ordem referenciada é clara ao invocar o fazer.

Estamos vivendo a fase mais aguda do conflito inevitável. Precisamos acolher o outro exatamente como é, com suas diferenças, porque o universo não tem lixeira e, se tivesse, não se sabe quem acabaria por lá. Não se trata de ser bonzinho, mas de ser bom.

Um país só pode crescer de forma sustentável quando cada um está disposto a correr riscos e dar o melhor de si em prol do todo. Isso é o que o Brasil nunca viveu. Só se corre riscos quando há confiança. E como construir confiança num país apaixonadamente dividido? Discurso conciliador é pouco.

A mediação de conflitos é uma metodologia que instrumentaliza a busca de consensos legítimos e realistas. É especialmente útil em relações de longa duração inevitável. O Brasil tem uma Lei específica de Mediação (Lei 13.140/15) ainda pouco conhecida, além de prever seu uso no Código de Processo Civil e outras políticas públicas. Há muito espaço para aprofundar e amadurecer a prática da mediação no Brasil. No Governo Bolsonaro, mais que nunca, a mediação é questão de sobrevivência.

A mediação pacifica porque trabalha a transformação comportamental dos envolvidos, tornando consciente o binômio poder/dever. O Judiciário infantiliza a população, que “delega para cima” suas responsabilidades decisórias, para continuar agindo e pensando como antes, sem tomar consciência das consequências de suas escolhas sobre “o outro”.

A mediação pode ser utilizada como metodologia de construção de soluções sustentáveis não apenas entre indivíduos que brigam entre si, mas também em âmbito organizacional, comunitário, urbanístico, escolar, sócio-ambiental, etc. O papel do Governo, através dos Ministérios (sobretudo Justiça e Educação) e órgãos reguladores, deve ser o de estrategista, propulsor da sociedade civil para que se aproprie de seu poder decisório naquilo que é negocial, resguardando o Judiciário para as matérias efetivamente de Direito que lhe cabe dirimir.

 

Originalmente publicado em meu perfil do LinkedIn.

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